quinta-feira, 7 de março de 2013

Conto - "Quando a noite"


Quando a noite


Estamos eu, Piaf e Boas no meu quarto olhando pela janela semicerrada do sétimo andar. A cidade está por todos os lados, acima e abaixo de nossas cabeças. Percebe-se que os apartamentos vizinhos estão menos intensos, que as famílias dormem, também as emoções repousam... Estava olhando em direção à janela quando percebo que a vista outrora cosmopolita e movimentada deu lugar a um escuro tranquilo, estava vendo apenas o passado. Lembro-me de quando morava em uma casa grande de madeira, um pouco afastada da cidade. Nela, todas as noites um ronco grave ecoava pelos cômodos. Ele carregava uma mensagem de segurança. Era um som grave, confortante; capaz de espantar o mal e que dizia “sosseguem, estou aqui. Nada lhes fará mal.”

Contudo, a mente incrédula desafia a regularidade da sinfonia de aconchego. Os casacos pendurados, as cortinas, a mochila recostada ao canto, os espelhos vultuosos e traiçoeiros. Os sons misteriosos que ecoavam das paredes, chão e teto. A escuridão tudo ludibria, envolve objetos e dá o contorno de seres. Ela faz esquecer do às vezes desagradável canto da noite. Silêncio. Está instaurado o reinado do medo.

“De onde virá? Como fará? Pense. As cobertas irão me proteger. Ted pode vigiar a retaguarda. Quem olhará as janelas?”. É possível vislumbrar, através da porta entreaberta do banheiro, luzes, vultos da noite refletidos no espelho. Vislumbrar apenas. Tem-se tanto medo de ver como de não avistar o que surge daquele reflexo diabólico. Será um espírito muito raivoso, vil, ou uma fera camuflada dentre as sombras? Melhor não saber. Encarar aquele objeto por muito tempo evoca o que a penumbra abriga e faz crescer um terror que de tudo toma conta.

As cortinas tremulando amplificavam o movimento das sombras. Às vezes, uma corrente de vento era gerada, ela ia espontaneamente levitando a ponta do tecido macio em direção à cama. Parece mais que algo com tentáculos estava tentando incansavelmente alcançar a minha área retangular segura. Tudo, desde os armários com seus segredos prontos para serem libertados até a ponta solta das cobertas era motivo de preocupação.

O latido que vem da noite não é também o mesmo. Esse é contido, se intercala com uma respiração ofegante. Parece mesmo mais inteligente, uma conversa codificada de conteúdo e propósitos sórdidos. Um galho cai, uma gota cai. São as criaturas no jardim lá fora e do lado de dentro, na cozinha. A ameaça crescente já é maior que o medo de ver por trás da porta.

“Não é mais possível aguentar esse inferno.” Ted e o travesseiro abandonado não acompanharam a velocidade com que a maçaneta girou... os passos apertaram em direção ao quarto mais longínquo. Têm-se a impressão de que agora que foi dada as costas aos seres perturbadores é que eles correm em perseguição. Isso faz a velocidade aumentar, mas não é o suficiente. As feras, quase a me alcançar, guincham, os espíritos de velhas bruxas se aproximam pelas portas dos cômodos que ultrapasso. Parece que meu desespero atiça o Indesejável, que cada passo me deixa mais vulnerável. No mesmo instante em que o meu calcanhar está para ser agarrado - tchi-tchu - a maçaneta gira de volta. Estava em território seguro outra vez.

Estava no epicentro daquele rugido estalado e grave. Ele me disse calorosamente e com serenidade: “deite-se, aqui os monstros não chegam”.