segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Haiti Brasileiro

Há alguns dias tive a oportunidade de visitar a Chácara Aliança em Rio Branco, o abrigo pelo qual passam a maioria dos imigrantes haitianos ao entrar no Brasil e depois serem conduzidos a postos de trabalho em todo o país. O que eu encontrei foi, surpreendentemente, uma luz de esperança e humanidade em meio aos meus preconceitos.

Em minha primeira de duas visitas, eu e minha família fomos recebidos por um funcionário da Secretaria de Direitos Humanos do Acre, o qual nos apresentou muito gentilmente as instalações, além de falar de toda a operação que estão desenvolvendo para acolher essas pessoas que vem se refugiar aqui.

Noutra oportunidade, dessa vez com amigos, fiz uma incursão semelhante a qual confirmou minha primeira impressão.



Os imigrantes que estão chegando no Brasil são das mais variadas nacionalidades. Todos os dias chegam dezenas ou até centenas de haitianos, cubanos, senegaleses, republico-dominiquenhos (está certo isso?) e outros, sendo a maioria jovens do sexo masculino.

Afastados do centro da cidade, ficam alojados em uma antiga chácara que funcionava como espaço de festas e eventos. São pessoas que saíram de seus países para buscar melhores condições de emprego no Brasil;  são médicos, comerciantes, pedreiros, eletricistas, engenheiros, donas de casa.

Esperávamos encontrar lá pessoas com fome, amontoadas em ginásios sem as condições mais básicas de vida como tínhamos ouvido falar. A surpresa veio agradável. Apesar de suas acomodações não serem cinco estrelas, tudo o que eu vi e ouvi, tudo o que eu senti com os imigrantes que conversei me transmitiu que o Brasil e o Estado do Acre estão fazendo um bom trabalho ali.

Isso porque existem, como pudemos ver, leitos para todos os mais de duzentos imigrantes que lá estavam, sendo uma ala reservada às mulheres, outra aos senegaleses e quartos reservados aos que vieram em família.

Segundo nos informamos, lá são servidas três refeições diárias para todos, além de haver funcionários do governo orientando e facilitando a regularização de seus documentos.

Também havia uma Lan House com acesso à internet, campo de futebol, lanchonete, refeitório e uma empresa realizando contratações.

Nem tudo é perfeito, é claro, há alguns aspectos que entendo serem preocupantes.

O maior deles é a falta de atendimento médico, melhor dizendo, alguma assistência na área de saúde para orientar os imigrantes e os próprios funcionários a lidar com o risco de doenças contagiosas. No local só há um médico que se dispõe a trabalhar lá dez horas por semana (esse cara é um herói!).

Fiquei preocupado também com o que aconteceria se – repentinamente – o fluxo de imigrantes aumentasse. Aquelas instalações não teriam condições de abrigar quinhentas ou mil pessoas como já ocorreu no passado.

Por fim, outra barreira, apontada pela administração do local é a língua. Muitos deles falam francês e não há ninguém lá que entenda o idioma, o que facilitaria bastante o trabalho dos próprios funcionários.


Fiquei feliz de ter feito essa visita. Fiz esse post não para me vangloriar de nada, até porque não há do que contar vantagem. O motivo pelo qual escrevi esse texto é chamar atenção dos brasileiros e dos acrianos para essa questão humanitária, que será muito debatida no mundo nos próximos anos.

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